A importância da Gazeta para o jornalismo | #OALANBRADO

A importância da Gazeta para o jornalismo

No ar, os apresentadores do Gazeta Esportiva na TV comentam sobre os preparativos para mais uma rodada de futebol
Para quem ama comunicação, viver em São Paulo é um grande privilégio. É na capital paulista que as coisas acontecem. Foi aqui que Assis Chateaubriand criou a TV Tupi e realizou a primeira transmissão televisiva do país, em setembro de 1950. O "Chatô", pioneiro neste novo segmento, adquiriu os equipamentos e algumas pessoas na cidade tiveram a oportunidade de acompanhar a primeira transmissão vinda do prédio no bairro Sumaré em São Paulo. Prédio, aliás, que comportou por quase duas décadas a antiga MTV Brasil, e é vizinha dos estúdios atuais da ESPN no Brasil.


E tem muita história por aqui. Palco de outros tantos momentos históricos e principal centro financeiro do país, não é preciso andar muito para saber porque São Paulo é tão querida por comunicadores. E um dos lugares com mais história tem também endereço e é um ícone arquitetônico e jornalístico na cidade. Na mais paulista das avenidas, o número 900 é um lugar cheio de significados, simbolismos e de bastante representatividade.

Vista incrível da sacada do prédio da TV Gazeta em São Paulo.
Cásper Líbero foi um grande visionário. Montou aquele que por muito tempo se manteve entre uma das principais publicações jornalísticas do país. Inventou moda. Inovou e, atualmente, seu nome logo é lembrado pela faculdade de sua fundação, uma das principais de comunicação no país: a Faculdade Cásper Líbero (pioneira a oferecer jornalismo na América Latina), que fica no prédio da Fundação Cásper Líbero, que é o mesmo que abriga também as rádios e TV Gazeta, além do portal da Gazeta Esportiva. Durante a vida, teve acertos e erros, como a agência Americanas, a primeira agência de notícias brasileira, em 1913, fechada no ano seguinte.




No início do século XX, A Gazeta surgia para figurar entre os mais notáveis e importantes jornais paulistanos. Cásper Líbero assumiu o comando do jornal em 1918. A posição do jornal durante a Revolução de 1930 foi o causador do empastelamento das suas antigas instalações. Graças a isso, Cásper conseguiu uma indenização junto ao governo e conseguiu dinheiro para modernizar toda sua estrutura.

Por suas posições políticas, o jornal conquistava o carinho dos paulistas. E Cásper Líbero fazia de A Gazeta um veículo cada vez mais importante. Fã de esporte e em busca de popularizar cada vez mais sua publicação, lançou o suplemente esportivo do jornal. A Gazeta Esportiva surgia como parte de A Gazeta até se tornar independente (e inverter as situações: era A Gazeta que fazia parte de A Gazeta Esportiva até encerrar seus trabalhos). Junto com o Jornal dos Sports, este no Rio de Janeiro, foram os pioneiros e, por muito tempo, os únicos dedicados exclusivamente ao esporte. Os dois ajudaram a popularizar o futebol no Brasil. No esportivo do Rio, o jornalista Mário Filho (que hoje dá nome ao Maracanã) e Thomaz Mazzoni, na Gazeta em São Paulo, eram as referências e grandes nomes do jornalismo esportivo brasileiro. Mazzoni, por sinal, criticava o "clubismo" entre a imprensa esportiva brasileira.


Thomaz Mazzoni e Cásper Líbero queriam a simpatia do público. Mazzoni, em seus textos, dava apelidos e criava mascotes aos clubes. O Corinthians era marcado pelo Mosqueteiro. O Juventus foi o Moleque Travesso após surpreender o gigante Corinthians. O São Paulo era o Clube da Fé. Embates entre os grandes paulistas também tinha nomes: Choque Rei, Derby Paulista, Majestoso e SanSão. Além de muitos outros nomes. Os profissionais e o trabalho de A Gazeta também foi um dos responsáveis por tentar "pacificar" os ânimos entre os clubes paulistas, que se dividiam, durante a década de 1920, em duas ligas paralelas.

Hall que recebe convidados dos programas da TV Gazeta atualmente; homenagem a nomes que passaram pelo canal
Cásper Líbero buscava associar cada vez mais o nome de A Gazeta a eventos esportivos. Criou a ciclística Corrida 9 de julho e a quase centenária São Silvestre, mais importante maratona brasileira que evento que fecha o calendário esportivo anual, sendo disputada no dia 31 de dezembro. Cásper viu uma corrida noturna em Paris, em 1924, e, no ano seguinte, realizou a edição brasileira, no dia de São Silvestre. A rádio e o jornal A Gazeta Esportiva promoveram, ainda, em 1943, o primeiro campeonato paulistano de torcidas organizadas. Disputa que parou até na televisão, com uma participação de Luis Roberto (hoje na Globo) e uma das revelações do canal.

A Gazeta - Edição Esportiva nasceu em 24 de dezembro de 1928. Era encarte semanal de A Gazeta. Se tornou A Gazeta Esportiva uma década depois. Em 1947, A Gazeta Esportiva passava a circular diariamente.

E o agito no mercado de comunicação não parava. Em 1943, começava a ser ouvida a Rádio Gazeta AM. Adquirida por Cásper ainda em vida, a Gazeta herdava o dial da Rádio Educadora, a primeira a transmitir em São Paulo. Por isso, a assinatura da rádio é "Gazeta, a primeira de São Paulo". Além disso, a Gazeta FM é a primeira do dial paulistano, nos seus 88.1 FM.

Central de transmissão digital da TV Gazeta; sinais em alta definição são geradas para vários cantos do país e para a internet

O nome Gazeta é pioneiro. A TV, surgida na década de 70, foi a primeira a transmitir 100% em cores. Décadas depois, foi a primeira a transmitir sua programação 100% pela internet. A também pioneira Faculdade de Jornalismo (grande sonho de Cásper Líbero) nascera em meio ao projeto de construir um edifício gigantesco em São Paulo. No testamento com os desejos de Cásper, ele pedira que sua empresa fosse transformada em Fundação e a colocava em posse de seus empregados quando morresse. Quando ele viera a falecer, em 1943 em acidente de avião, que vitimara também o arcebispo de São Paulo, as empresas tomaram um novo rumo.

A sede inicial do grupo era no centro da cidade. Uma prédio de oito andares na, hoje, avenida Cásper Líbero (antiga Rua Conceição), era um modesto empreendimento que dava conta do recado quanto aos produtos do grupo. Até que o grupo, buscando crescer ainda mais, deu um passo maior que a perna. A construção de um grande empreendimento no coração da cidade foi adiante.

A Avenida Paulista, diferente da agitação de hoje, sendo o coração financeiro da cidade, além de abrigar grandes manifestações populares, era um reduto residencial dos antigos Barões de Café. Cásper Líbero tinha um espaço no número 900. Lá, surgiria um grande empreendimento imobiliário. O mais resistente e seguro prédio do país. O sonho alto dos envolvidos comprometeu os veículos do grupo, que, tempos depois, enfrentaria muita instabilidade. Tanto que, durante dez anos, a construção ficou parada e o prédio, que tinha capacidade e estrutura para ser muito maior, teve sua finalização adiantada.

Assim, foram feitas parcerias para o prédio, como com a Faculdade Objetivo, que finalizara o acabamento de alguns andares. O imponente prédio, e hoje referência para estudantes de comunicação, foi administrado pelo Grupo Folha, por meio de seu dono, Octávio Frias de Oliveira (que presidiu a Fundação por cinco anos). O projeto da Folha era assumir todos os segmentos e públicos do impresso paulista, para bater de frente com seu principal concorrente, O Estado de S. Paulo. Assim, os jornais de Cásper Líbero passaram a ser de responsabilidade de edição da Folha de S. Paulo, na Barão de Limeira.

Enquanto isso, a TV Gazeta seguia. E fez parceria com a antiga TV Excelsior, canal 9 de São Paulo. A emissora tinha alguns problemas estruturais e era crítico do regime militar. Sofreu por isso. O canal possuía um estilo inovador, com equipamentos modernos e grande elenco. Frias, presidente da Fundação Cásper Líbero, trouxe os equipamentos do canal 9 para o prédio da Gazeta, na Paulista. Por isso, a Gazeta foi chamada, no período, de Canal 20 (pelo pool Excelsior Canal 9 + Gazeta Canal 11).

Com seus donos perseguidos pela ditadura, a Excelsior fechou em 1970. Hoje, o acervo de programas da emissora está na posse da Fundação Cásper Líbero.

Em 1979, A Gazeta deixava de circular. Tornou-se suplemento de A Gazeta Esportiva. Até que em 1999, rodou nas bancas pela última vez. Já a Esportiva seguia firme e sem muita concorrência no segmento (a exceção de alguns poucos, como a revista Placar, que tinha uma proposta diferente do diário). Só viria a ter um concorrente de peso no final da década de 90. O início das operações do jornal Lance! em 1997 colocava em risco todo o trabalho do jornal.

Alguns anos antes, era lançada uma revista mensal por parte da Gazeta. A Gazeta Esportiva Ilustrada (num modelo parecido com o do Placar). O produto exaltava os jogadores e clubes, provocando grande ansiedade por parte do público. O slogan: "Oba! Oba! Isso sim que é jornal". A publicação era colorida. Isso batia de frente com as edições diárias da própria Gazeta Esportiva, um jornal mais sisudo no modo de escrever e editar matérias: muito texto e um jeito hoje considerado antigo para tratar de um tema relativamente leve.

Em 1997, o Lance! surgiu com uma proposta pioneira para atrair um publico mais jovem para as bancas de jornal. O primeiro no Brasil 100% colorido e em formato tabloide, tirou o público da Gazeta Esportiva.

As disputas entre os dois estava acirrada, mas o jeito "envelhecido" e os problemas administrativos fizeram com que o jornal vivesse seus últimos anos. Em 97, o Lance! colocava seu site no ar. Em 1998, entrava no ar o GazetaEsportiva.net. Em 2001, circulava pela última vez a versão impressa de A Gazeta Esportiva, e toda sua equipe é remanejada para o portal online.

A Fundação manteve-se independente. O prédio no número 900 da Paulista seguia colocando brilho nos olhos dos estudantes, principalmente, de jornalismo. Dentro dele, a TV Gazeta Canal 11 de São Paulo, que, apesar dos mais de 40 anos, se mostra cada vez mais uma emissora moderna. Nasceu no mesmo dia do aniversário da cidade. Transmite hoje pela internet, tem uma equipe com profissionais qualificados e experientes, além de possuir uma grande história, que consumiria outro grande texto.



Foi palco de grandes nomes do jornalismo e entretenimento: Clodovil, Claudete Troiano, Fausto Silva, Serginho Groisman, Astrid Fontenelle, Galvão Bueno, Joelmir Beting, Cléber Machado, Luís Roberto, Tiago Leifert, Mariana Godoy, Fernando Meirelles, Marcelo Tas, Thiago Oliveira, Celso Cardoso, Palmirinha Onofre, Michelle Gianella, Rodolpho Gamberini, Anita Paschkes, Cátia Fonseca, Ronnie Von, Flávio Prado e tantos outros. Fez parceria com a CNT/Rede OM na década de 90 numa tentativa de se tornar uma grande rede nacional de televisão. A parceria foi desfeita. Anos mais tarde, fez parceria com o Esporte Interativo e retransmitiu alguns dos principais jogos do futebol internacional.

Com mais de 35 anos no ar, o programa Mulheres é o mais antigo do gênero da televisão brasileira. O Gazeta Esportiva é outro programa que já é referência e é uma derivação do impresso. O dominical Mesa Redonda é outro muito importante. E os programas esportivos da Gazeta tem história. Quem não se lembra da briga Avallone x Milton Neves? Um marco na história do jornalismo esportivo do país.

Estar dentro do prédio da emissora é uma deliciosa viagem no tempo e um belíssimo olhar para o futuro. E tem para todos os gostos: saudosistas, nostálgicos e os mais modernos. Quem ama comunicação se apaixona pela estrutura da Fundação. Dentro, uma equipe extremamente competente, simpática e dedicada. Isso partindo do funcionário que trabalha atrás das câmeras chegando até ao que apresenta o principal telejornal da emissora.

Por trás das câmeras, uma equipe dedica e extremamente atenciosa

A redação jornalística não para. E, no ar, a agilidade da informação é resultado de todo esse trabalho. A cobertura de uma das edições sobre os grandes jogos da rodada é intensa. Como, por exemplo, num pré-jogo do principal clube da cidade.

Pela Libertadores, o Corinthians se preparava para entrar em campo contra o Cerro Porteño, na Arena de Itaquera. O Timão venceria a partida e consolidaria a primeira posição do grupo. No pré-jogo, Osmar Garrafa fazia um link para mostrar a movimentação no estádio. Registrou uma figura de torcedora. Dona Vanda! Com um forte grito, mostrava ainda mais seu amor pelo clube. A transmissão levou a todos que estavam no estúdio acompanhando a entrada de Garrafa ao vivo no Gazeta Esportiva às gargalhadas. A apresentadora - a simpática e extremamente competente e incrivelmente bonita, Anita Paschkes - pediu a opinião dos comentaristas Flávio Prado e Celso Cardoso (dois grandes nomes do jornalismo atual; ambos, também simpáticos e competentes) sobre a partida que dali a algumas horas se iniciaria.

Antes dessa abertura do programa esportivo, foi possível observar como é um pouco da agitação de Casperianos e profissionais da Gazeta. Na redação de esporte e jornalismo geral, dava pra ver a tensão provocada pelo clima político no país. Em Brasília, a notícia de que a presidente Dilma confirmara que Luís Inácio Lula da Silva assumiria o cargo de Ministro da Casa Civil, em meio a pedidos de Impeachment do cargo da presidente. Quem observava de fora o trabalho da redação, ficava deslumbrado com todo o trabalho e a busca por informações.

No telejornal que atualiza as notícias do dia, Mariana Armentano apresentou o Gazeta News. A lindíssima apresentadora soteropolitana também é responsável pela Previsão do Tempo dos principais telejornais da casa. Nos corredores, a preparação para os telejornais do dia.

O editor deste site, tímido e visivelmente vermelho, no meio de duas grandes profissionais atuais da Gazeta: Anita e Mariana. Apresentadoras simpáticas e muito competentes
Ainda foi possível ver a apresentadora Stella Gontijo se preparando para uma chamada do Jornal da Gazeta que se iniciaria as 19h. Assim como Gabriel Cruz, outro rosto e voz muito conhecido do canal, responsável pelo jornal das 22h. Cátia Fonseca, aliás, uma das principais apresentadora de programa feminino da TV  brasileira, passou pelos corredores e era possível ver a conversa sobre a edição do programa que acabava de terminar. A timidez e o receio de estar incomodando fizeram com que o editor deste site que vos escreve não falasse tanto e ficasse cada vez mais vermelho. Mas, de longe, ficava admirado com todo o trabalho e a simpatia do pessoal.

E todos fizeram questão de cumprimentar quem andava pelos corredores. A equipe de profissionais que ajudam todos os dias a colocar o canal no ar também mostraram-se muito atenciosos. Ou seja, todos, sem exceção, trabalham com muita simpatia e mostram que dentro da Gazeta o trabalho é extremamente bem feito e os resultados positivos são mais do que justos.

E, para quem é fã de história de jornalismo, encontrar tantas figuras de credibilidade e reconhecimento profissional, é uma grande honra..
Celso Cardoso foi um dos que também foram muito gentis. O reconhecimento e credibilidade deste pessoal
Cásper Líbero foi o percursor de tudo isso. Quem passa pela Paulista enxerga de longe todo o significado deste prédio e dos escadões que, durante o dia, é cheio de estudantes. Dentro, além da faculdade, das emissoras de comunicação, há cinema e teatro. Estes que frequentemente recebem grandes filmes em cartaz, peças importantes, etc. Enfim, o trabalho de Cásper Líbero e todo seu império se confundem com a da comunicação no país. E a Gazeta, mais do que nunca, é cada vez mais paulistana. É a imagem de São Paulo! Assim, como sempre no canal 11, é sempre bom vê-la.

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Dois grandes livros me ajudaram a entender um pouco sobre a mídia e a imprensa esportiva brasileira. O primeiro, de Mauricio Stycer, HISTÓRIA DO LANCE! PROJETO E PRÁTICA DE JORNALISMO ESPORTIVO (Segunda edição, 2015 - Ebook, disponível no Google Play Store por R$ 7,00). Uma gostosa viagem pela história do futebol e do jornalismo brasileiro no século XX até hoje. 

Outra publicação sensacional é OS MENINOS DA FOLHA DA TARDE - E COMO ELES REVOLUCIONARAM O JORNALISMO ESPORTIVO PAULISTA. (2011 - Editora Porto de Ideias). Os autores deste livro são os que foram responsáveis pela parte esportiva da Folha da Tarde (publicação do Grupo Folha criada para competir com o rival Jornal da Tarde, de O Estado de S. Paulo). Uma equipe competente fez da publicação um marco na história do jornalismo esportivo paulistano. 

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