Dinheiro do futebol, de Mariano Guindal
Além de ser um esporte e um grande espetáculo, o futebol é acima de tudo um grande negócio financeiro. Estima-se que movimente cerca de US$ 500 bilhões por ano em todo o mundo, tornando-se uma das maiores e mais lucrativas indústrias de entretenimento do planeta. O crescimento é particularmente visível em grandes eventos como a Copa do Mundo, que pode gerar um volume de negócios próximo a 40 bilhões. Portanto, como qualquer sector económico de grande escala, deve ser monitorizado pelas autoridades da concorrência e, em particular, pela justiça, para prevenir abusos e práticas corruptas.
Espanha, liderada pela Catalunha e Madrid, ocupa uma posição de destaque neste setor. O futebol consolida-se como um dos motores económicos da indústria do entretenimento, uma das áreas com maiores previsões de futuro. Os dados confirmam-no: na época 2024-2025, o futebol profissional gerou 5.464 milhões de euros de receitas anuais em Espanha, prevendo-se que volte a ultrapassar o recorde na presente época. O efeito corresponde a 1,44% do PIB, contribui com 8,39 mil milhões de euros em receitas fiscais e gera 194 mil empregos. Além disso, mais de 17 milhões de pessoas compareceram aos estádios, enquanto o mercado de transferências de jogadores atingiu os 797 milhões de euros anuais. O impacto local desta atividade aumenta devido à economia induzida que gera: só em Barcelona, a atividade futebolística contribui com 1521 milhões de euros por ano para a cidade.
Em Espanha, o futebol profissional gerou 5.464 milhões de euros na época passada
Como disse Jorge Valdano, “o futebol é o mais importante do menos importante”. A frase resume a imensa paixão que este desporto desperta e a sua capacidade de mobilizar multidões. Precisamente por esta razão, é particularmente atraente para certos líderes políticos tentarem explorá-lo para fins eleitorais, o que pode conduzir a práticas ilegais. Embora o futebol gere benefícios económicos, sociais e de integração para um país, não justifica qualquer apoio público.
A estratégia normalmente consiste em recorrer a outros meios, como a requalificação de terrenos ou a concessão de licenças municipais para transformar estádios em centros comerciais ou salas de espetáculos. A influência dos clubes faz com que os impactos ambientais ou de convivência às vezes não sejam suficientemente valorizados.
Esta prática, que beira a legalidade, continuou a repetir-se em algumas câmaras municipais e comunidades autónomas. Por isso, o novo tribunal da concorrência, que inicia a sua etapa com Juanjo Ganuza, deverá prestar especial atenção a uma indústria que concentra tanto dinheiro e interesses. O mesmo pode ser exigido de juízes e advogados anticorrupção. Permitir estes abusos seria um erro grave: colocaria em perigo a galinha dos ovos de ouro.