Por que a abordagem do ciclo de capital é uma estrutura eficaz para investimentos de longo prazo
No seu livro “Capital Returns”, Edward Chancellor explica a filosofia de investimento utilizada pela Marathon Asset Management em Londres de 2002 a 2015. O livro defende uma abordagem de ciclo de capital, argumentando que os investidores podem obter excelentes retornos a longo prazo concentrando-se na dinâmica da oferta da indústria e na alocação de capital, em vez de confiar apenas nas previsões da procura.
Olhando além da demanda
O investimento tradicional normalmente se concentra na estimativa da demanda futura. Os investidores passam muito tempo prevendo o crescimento das vendas, os padrões de gastos dos consumidores e as tendências económicas. Chanceler acredita que esta abordagem tem limitações porque a procura é extremamente difícil de prever com precisão.
Em vez disso, a abordagem do ciclo de capital muda o foco para a oferta. Examina quanto as empresas de capital estão a investir, se o potencial da indústria está a crescer ou a diminuir, e como estas mudanças podem afectar a rentabilidade futura. Dado que as tendências da oferta são geralmente mais fáceis de observar do que as tendências da procura, podem fornecer uma base mais sólida para decisões de investimento a longo prazo.
Como funciona o ciclo do capital
Cada setor passa por períodos de expansão e contração.
Quando as empresas alcançam lucros elevados, atraem concorrência e novos investimentos. As empresas existentes estão expandindo a capacidade de produção enquanto novos participantes entram no setor. Com o tempo, este investimento excessivo cria um excesso de oferta, intensifica a concorrência e pressiona os preços e as margens de lucro.
À medida que a rentabilidade diminui, os intervenientes mais fracos saem do mercado, o investimento abranda e a capacidade da indústria diminui. A redução da oferta, em última análise, restaura o poder de fixação de preços e a rentabilidade, preparando o terreno para um novo ciclo de crescimento.
Os investidores que conseguirem identificar estes pontos de viragem antes do mercado mais amplo poderão beneficiar da melhoria dos fundamentos e de avaliações atrativas.
Por que os mercados muitas vezes perdem o ciclo
Chanceler acredita que os mercados muitas vezes ignoram as mudanças no ciclo de capital porque os investidores se concentram demasiado em eventos de curto prazo. Os resultados trimestrais, as manchetes macroeconómicas e as previsões da procura dominam frequentemente as decisões de investimento, enquanto as mudanças estruturais na oferta da indústria recebem muito menos atenção.
Isto cria oportunidades para investidores pacientes dispostos a olhar para além da incerteza de curto prazo e explorar como a alocação de capital está a mudar o cenário competitivo da indústria.
Vieses comportamentais que influenciam os investidores
A abordagem do ciclo de capital também explica porque é que os investidores cometem repetidamente erros semelhantes. Um erro comum é a negligência competitiva, em que os investidores subestimam a forma como o aumento do investimento numa determinada indústria acabará por reduzir a rentabilidade.
Outra é a negligência da taxa básica, em que os participantes do mercado se concentram apenas nas condições atuais, sem considerar como as decisões de investimento passadas continuam a impactar os retornos atuais.
Chanceler também aponta para um quadro restrito em que os investidores analisam as empresas isoladamente, em vez de as compararem com situações semelhantes em todos os sectores ou na história. Finalmente, o erro de extrapolação faz com que os investidores presumam que as tendências actuais continuarão indefinidamente, embora os ciclos económicos sejam inerentemente cíclicos.
Caracterizando oportunidades atraentes dentro do ciclo de capital
Segundo o Chanceler, as oportunidades mais atraentes surgem frequentemente em indústrias onde o crescimento da capacidade abrandou, a concorrência tornou-se mais disciplinada e as condições de oferta estão a melhorar.
Indústrias com um número limitado de concorrentes racionais, elevadas barreiras à entrada, alocação razoável de capital e disciplina de preços tendem a gerar excelentes retornos a longo prazo. Por outro lado, em sectores que registam uma expansão agressiva da capacidade ou uma concorrência irracional, a rentabilidade deteriora-se frequentemente ao longo do tempo.
A importância da gestão
A gestão de uma empresa desempenha um papel fundamental no ciclo do capital.
Equipas de gestão fortes alocam o capital com cuidado, em vez de perseguirem o crescimento por si só. Os investidores devem avaliar a forma como as empresas abordam os gastos de capital, investigação e desenvolvimento, aquisições, gestão de dívidas, recompras de ações e emissões de ações. As empresas que alocam capital de forma eficiente estão geralmente melhor posicionadas para criar valor sustentável para os acionistas ao longo do ciclo.
Por que os investidores de longo prazo têm uma vantagem
Um dos principais argumentos do Chanceler é que o investimento a longo prazo funciona porque há menos concorrência por informações que permanecem valiosas durante muitos anos.
Embora a maioria dos participantes no mercado se concentre nos resultados trimestrais e nas notícias de curto prazo, os investidores de longo prazo podem beneficiar da análise das tendências estruturais da indústria, das decisões de alocação de capital e das mudanças na dinâmica da oferta. Esses insights geralmente têm uma vida útil muito mais longa e podem gerar retornos excelentes em um horizonte de investimento mais longo.
Principais conclusões para investidores
A abordagem do ciclo de capital lembra aos investidores que a rentabilidade depende não apenas da procura, mas também da quantidade de capital que uma determinada indústria atrai. O excesso de investimento acaba por destruir os lucros, enquanto o investimento disciplinado e a redução da capacidade muitas vezes sustentam a rentabilidade futura.
Em vez de perseguir sectores populares durante períodos de pico de optimismo, os investidores a longo prazo devem monitorizar as tendências da oferta, a qualidade da gestão e as decisões de alocação de capital. Ao identificar indústrias onde o ciclo do capital está a evoluir para retornos mais elevados, os investidores podem manter-se à frente do mercado e aumentar as suas hipóteses de gerar riqueza sustentável e de longo prazo.